Autoridades e especialistas repercutem decisão que suspendeu licitações para obras na BR-319
28/04/2026
(Foto: Reprodução) Justiça suspende licitação de obras na BR-319: medida atinge quatro pregões do Dnit
A decisão da Justiça Federal que suspendeu, por 70 dias, as licitações para obras na BR-319, no Amazonas, repercutiu entre autoridades, economistas e representantes do setor produtivo no estado. A medida, anunciada nesta terça-feira (28), atinge quatro pregões do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit) e foi tomada após questionamentos sobre risco ambiental e dispensa de licenciamento.
Os editais haviam sido lançados no dia 13 de abril e previam investimento de R$ 678 milhões em serviços ao longo da rodovia, que liga Manaus a Porto Velho. As sessões estavam marcadas para esta quarta (29) e quinta-feira (30), mas foram suspensas pela Justiça, que também fixou multa de R$ 1 milhão em caso de descumprimento.
Economistas ouvidos pelo g1 avaliam que a paralisação pode afetar a competitividade do Amazonas. A BR-319 é considerada estratégica para reduzir custos de transporte e melhorar a ligação de Manaus com o restante do país.
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Segundo especialistas, a indefinição sobre a obra mantém o estado em desvantagem logística. Isso pode encarecer produtos, dificultar investimentos e limitar o escoamento da produção industrial e agrícola.
Reação política
Entre representantes políticos, houve críticas à decisão. O senador Omar Aziz (PSD) questionou a suspensão e disse que o tema envolve interesses nacionais.
"A gente ouviu tecnicamente bem o que foi colocado, mas é preciso apontar algumas coisas. Isso acaba entrando em um debate que deveria ser dos brasileiros, dos amazonenses", afirmou.
O parlamentar também questionou a atuação da Justiça no caso, classificando a decisão como equivocada. Aziz ainda afirmou que pretende acionar o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) para apurar a atuação da vara responsável e criticou o que considera interferência de interesses externos no debate sobre a rodovia.
O senador Eduardo Braga (MDB) também criticou a decisão e afirmou que o governo federal já prepara recursos para tentar reverter a suspensão. Segundo ele, a BR-319 é uma das rodovias mais estudadas do país e a paralisação mantém o Amazonas em desvantagem logística.
"O Amazonas não pode ser refém da lama, da poeira e do atoleiro. A BR-319 é, sem dúvida, a rodovia federal mais estudada do país, com consultas públicas e estudos de impacto já realizados. Vamos trabalhar para reverter essa decisão com argumentos jurídicos, técnicos e também econômicos e sociais", disse.
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Setor produtivo
O presidente da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Amazonas (Fecomércio-AM), Aderson Frota, destacou a importância da rodovia para a economia e criticou argumentos contrários à obra.
"Essa argumentação de que haverá agressão à natureza é infundada", disse. Segundo ele, a BR-319 pode representar uma alternativa logística importante para o estado.
Já o presidente do sindicato das empresas de ônibus de Roraima (Setrab), Remídio Monai, afirmou que a suspensão é um entrave ao desenvolvimento.
"A Amazônia precisa de desenvolvimento com responsabilidade. Não se trata de escolher entre preservar ou desenvolver, mas de fazer ambos com inteligência, planejamento e compromisso com a população que vive na Amazônia", declarou.
Debate ambiental
O economista Osiris Messias Araújo da Silva defendeu a importância da rodovia, mas destacou a necessidade de cumprir as regras ambientais. Segundo ele, há mecanismos de proteção ao longo da BR-319 que podem ajudar a conciliar infraestrutura e preservação.
"Saliento que a BR-319, única ligação rodoviária entre Manaus e o resto do Brasil, é amplamente protegida por uma verdadeira "barreira verde" interposta pelos governos Federal e do Amazonas através de Unidades de Conservação situadas ao longo de toda sua extensão de 875 km. Portanto, conciliar a necessidade de infraestrutura rodoviária com a preservação ambiental basta fazer cumprir a lei que estabelece os mecanismos de proteção do bioma via Unidades de Conservação", destacou.
Em nota, o presidente do Centro da Indústria do Estado do Amazonas (Cieam), Lúcio Flávio Morais de Oliveira, afirmou que a decisão retoma um debate antigo. Ele disse não se tratar de um fato isolado, mas da reedição de um enredo que atravessa décadas e insiste em manter o estado amazonense à margem da integração nacional.
"O Cieam reafirma que desenvolvimento e preservação não são objetivos excludentes. Ao contrário, a ausência de infraestrutura adequada é que amplia riscos, encarece operações e dificulta a implementação de modelos sustentáveis mais eficientes. Sem isso, a BR-319 continuará sendo menos uma estrada e mais um retrato das nossas indecisões", diz um trecho da nota.
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Michael Dantas/WCS